A insuficiência placentária causa alterações progressivas na circulação útero-placentária e fetal. O Doppler permite identificar cada etapa dessa deterioração hemodinâmica, fornecendo uma avaliação sequencial da função placentária e da adaptação fetal:
- Estágio 1: A insuficiência placentária aumenta a resistência das artéria umbilicais.
- Estágio 2: O feto responde redistribuindo o fluxo, priorizando cérebro, coração e adrenais → alteração da ACM.
- Estágio 3: A descompensação cardíaca surge nas etapas finais → alteração do ducto venoso.

2. Vasos avaliados
Três vasos compõem o eixo central de interpretação do Doppler na insuficiência placentária:
• Artéria umbilical (AU): avalia diretamente a resistência placentária (compartimento fetal da placenta).
• Artéria cerebral média (ACM): demonstra redistribuição de fluxo ("centralização").
• Ducto venoso (DV): reflete repercussões avançadas no coração fetal.
3. ARTÉRIA UMBILICAL
3.1 Fisiologia
A resistência ao fluxo sanguíneo na artéria umbilical depende da eficácia dos espaços intervilosos em permitir troca gasosa. Alterações estruturais ou funcionais da placenta — reduções na área de troca, infartos, vilosidades imaturas — aumentam a resistência, levando a menor aporte de oxigênio e nutrientes ao feto.
3.2 Técnica
O cordão umbilical e as artérias umbilicais (em vermelho na figura) são inicialmente identificadas pelo doppler colorido.

Depois de identificado o vaso a ser estudado, utiliza-se o Doppler espectral para traçar um gráfico que relaciona a velocidade das hemácias em função do tempo, através do qual são calculados diferentes índices. Diferentes padrões desse traçado sugerem alterações específicas na vitalidade fetal.

O índice com melhor desempenho na avaliação da vitalidade fetal é o índice de pulsatilidade (IP), na figura representado como "Umb-PI".
3.3 Valores de referência
O IP varia conforme a idade gestacional. Valores acima do percentil 95 indicam aumento da resistência placentária.

A insuficiência útero-placentária evolui de maneira progressiva e, na maioria das vezes, previsível no Doopler da artéia umbilical:
1. DIástole reduzida, mensurável pelo valor do IP.
2. Diástole zero — ausência total de fluxo diastólico.
3 Diástole reversa — fluxo invertido.
Essas alterações se relacionam diretamente com a proporção de vilosidades placentária funcionantes.

As alterações no Doopler da artéria umbilical podem ser identificadas da seguinte maneira:



4. ARTÉRIA CEREBRAL MÉDIA (ACM)
Centralização: a resposta adaptativa fetal
A artéria cerebral média é o principal marcador de centralização fetal, mecanismo adaptativo diante da hipóxia crônica. Nessa situação, há vasodilatação cerebral, aumento do fluxo diastólico e queda do IP.
4.1 Fisiologia
Quando há redistribuição de fluxo:
• o IP da ACM cai abaixo do percentil 5
• o fluxo diastólico torna-se mais evidente
• o feto prioriza o cérebro, adrenais e coração
4.2 Técnica
A artéria cerebral média (ACM), devido ao seu trajeto e topografia, é a artéria do sistema nervoso central melhor acessível ao Doppler.
Artéria cerebral média (seta azul), adjacente ao Polígono de Willis
Diferentemente da AU, a ACM exige ângulo de insonação ideal próximo de 0°, especialmente quando medimos PSV em suspeita de anemia .

4.3 Valores de referência

4.4 Como usar na prática


DUCTO VENOSO
5.1 Fisiologia
O DV deriva sangue oxigenado diretamente para o coração fetal. É um marcador sensível de pressão diastólica elevada nas câmaras cardíacas, especialmente quando a insuficiência placentária progride.
5.2 Técnica

5.3 Valores de referência

Com o agravamento hemodinâmico:
1. IP do DV aumenta
2. Onda A diminui
3. Onda A ausente
4. Onda A reversa — marcador de alto risco de óbito fetal e acidemia grave.
5.4 Como usar na prática



Quanto maior a alteração da onda A, pior o pH ao nascimento e maior o risco de morbidade neonatal grave, sendo o ducto venoso um dos parâmetros arteriais e venosos mais fortemente associados a desfechos adversos.
6. ARTÉRIAS UTERINAS
6.1 Fisiologia
No 1º trimestre, ocorre o remodelamento das artérias espiraladas pelo trofoblasto. Quando esse processo falha, a resistência permanece elevada, predispondo:
• Pré-eclâmpsia (especialmente precoce)
• Restrição de crescimento fetal (RCF)
As uterinas avaliam o compartimento materno da placenta — enquanto a AU reflete o compartimento fetal.
6.2 Técnica
Parâmetros importantes:
• IP das uterinas (normalmente utilizado como média das duas).
• Incisura protodiastólica, especialmente após 24 semanas.
6.3 Valores de referência


7. INTEGRAÇÃO DOS PARÂMETROS E CONDUTA
A interpretação do Doppler deve sempre ser associada ao percentil do peso fetal estimado (PFE).
Essa combinação permite diferenciar:
• PIG (peso baixo, mas Doppler normal)
• RCF (peso baixo + Doppler alterado)

A conduta segue o modelo por estágios de Figueras & Gratacós (2014), que organiza o acompanhamento conforme:
• Artéria umbilical
• Artéria cerebral média
• Ducto venoso
•
Artérias uterinas
• Cardiotocografia (CTG)
Esse modelo orienta o seguimento e o momento ideal do parto, reduzindo o risco de acidemia fetal e morbidade neonatal.
Legenda das siglas:
• RCF — restrição do crescimento fetal
• PIG — pequeno para a idade gestacional
• CA — circunferência abdominal
• AUMB — artéria umbilical
• AUt — artérias uterinas
• ACM — artéria cerebral média
• DV — ducto venoso
• CTG — cardiotocografia
Referência: Figueras F, Gratacós E. Update on the Diagnosis and Classification of Fetal Growth Restriction and Proposal of a Stage-Based Management Protocol. Fetal Diagn Ther. 2014;36:86–98.