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Rastreamento ultrassonográfico de cromossomopatias no primeiro trimestre da gestação

O rastreamento ultrassonográfico de cromossomopatias no primeiro trimestre permite a identificação precoce de gestações com maior risco para anomalias cromossômicas. Realizado entre 11 e 13 semanas e 6 dias, baseia-se na avaliação padronizada de marcadores ultrassonográficos validados. Seus achados devem ser interpretados de forma integrada aos dados clínicos, respeitando os limites do método e os princípios do aconselhamento pré-natal.

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Rastreamento ultrassonográfico de cromossomopatias no primeiro trimestre da gestação

Rastreamento ultrassonográfico de cromossomopatias no primeiro trimestre da gestação 

Autor: Dr. Danilo Eduardo Abib Pastore

Introdução

A ultrassonografia obstétrica realizada entre a 11ª e a 14ª semanas de gestação, frequentemente denominada exame morfológico do primeiro trimestre, desempenha papel central no rastreamento de anormalidades cromossômicas fetais (cromossomopatias ou aneuploidias). Trata-se de um exame de grande relevância clínica, especialmente para a detecção de aneuploidias compatíveis com a progressão da gestação até o termo, com destaque para as trissomias dos cromossomos 21, 18 e 13.

Principais aneuploidias rastreadas no primeiro trimestre

  • Trissomia 21 (Síndrome de Down)
    É a aneuploidia mais frequente entre os nascidos vivos. Caracteriza-se por deficiência intelectual de grau variável, maior prevalência de cardiopatias congênitas, alterações gastrointestinais e maior risco de algumas doenças ao longo da vida. Em muitos casos, a gestação evolui até o termo, o que torna o rastreamento particularmente relevante.

  • Trissomia 18 (Síndrome de Edwards)
    Associada a malformações múltiplas e graves, incluindo cardiopatias complexas, alterações do sistema nervoso central e restrição de crescimento fetal precoce. Apresenta alta taxa de mortalidade intrauterina e neonatal, sendo a sobrevida além do primeiro ano rara.

  • Trissomia 13 (Síndrome de Patau)
    Caracteriza-se por malformações severas do sistema nervoso central, da face e do coração, frequentemente associadas a defeitos de linha média. Assim como a trissomia 18, apresenta prognóstico extremamente reservado, com elevada letalidade pré e pós-natal.

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Pricipais cromossomopatias rastreadas no primeiro trimestre


Além do rastreamento de aneuploidias, a ultrassonografia do primeiro trimestre oferece benefícios adicionais fundamentais, como a confirmação da vitalidade fetal, a datação precisa da gestação, o diagnóstico precoce de malformações fetais graves e a identificação de gestações múltiplas. Nestes casos, o exame permite ainda a determinação da corionicidade, um dos mais importantes fatores prognósticos no acompanhamento de gestações gemelares.



beneficios associados do rastreamento
Benefícios associados do rastreamento do primeiro trimestre


Algumas características maternas também influem no cálculo de risco para aneuploidias, destacando-se: 

  • Idade materna
    É o principal fator de risco isolado para aneuploidias. A probabilidade de não disjunção cromossômica aumenta progressivamente com o avanço da idade materna, elevando o risco basal para trissomias, especialmente a trissomia 21.

  • Idade gestacional (IG)
    A determinação precisa da IG no primeiro trimestre é essencial para a padronização da medida da translucência nucal e para a correta interpretação dos marcadores bioquímicos. Erros na datação podem levar a estimativas incorretas de risco.

  • História prévia de cromossomopatias
    Antecedentes de aneuploidias em gestações anteriores ou na família aumentam o risco pré-teste e devem ser incorporados ao cálculo final, independentemente dos achados ultrassonográficos atuais.

  • β-hCG (subunidade beta da gonadotrofina coriônica humana)
    Níveis séricos maternos alterados contribuem para o refinamento do risco. Em especial, valores mais elevados que o esperado para a idade gestacional estão frequentemente associados à trissomia 21.

  • PAPP-A (proteína A associada à gestação)
    Concentrações reduzidas no primeiro trimestre estão associadas a maior risco de aneuploidias, sobretudo a trissomia 21, além de se correlacionarem com desfechos obstétricos adversos, como restrição de crescimento fetal e pré-eclâmpsia.



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    Fatores de risco para aneuploidias




  • As características fenotípicas fetais estudadas no exame morfológico incluem, além da  translucência nucal (TN)  ,  o aspecto dos ossos nasais, os padrões de fluxo no ducto venoso e na valva tricúspide.


    Translucência nucal

    Imagem 2

    Take-home messages — Translucência nucal (TN)

    • A translucência nucal é o principal marcador ultrassonográfico do rastreamento de aneuploidias no primeiro trimestre, especialmente para as trissomias 21, 18 e 13.

    • A TN não estabelece diagnóstico, mas expressa um aumento ou redução do risco, devendo sempre ser interpretada em conjunto com:

      • idade materna;

      • idade gestacional;

      • outros marcadores ultrassonográficos;

      • marcadores bioquímicos maternos.

    • A acurácia da TN depende fundamentalmente da técnica. A medida deve ser realizada em:

      • plano sagital mediano verdadeiro;

      • feto em posição neutra;

      • imagem amplamente ampliada;

      • calipers posicionados exatamente sobre as bordas ecogênicas que delimitam a translucência.

    • O período ideal para a mensuração da TN é entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias, com comprimento cabeça-nádega (CCN) entre 45 e 84 mm, intervalo no qual o marcador apresenta maior reprodutibilidade e valor clínico.

    • TN aumentada não se associa apenas a aneuploidias. Também pode indicar:

      • cardiopatias congênitas, inclusive em fetos cromossomicamente normais;

      • síndromes genéticas não cromossômicas;

      • displasias esqueléticas;

      • alterações do sistema linfático fetal.

    • Mesmo na presença de cariótipo normal, a TN aumentada está associada a maior risco de malformações estruturais graves, óbito fetal intrauterino e outros desfechos adversos, justificando seguimento especializado e avaliação detalhada.

    • O desempenho do rastreamento por TN é elevado, com capacidade de identificar mais de 75% dos fetos com trissomia do cromossomo 21, mantendo uma taxa de falso-positivo em torno de 5%.

    • Existe relação direta entre a espessura da TN e o risco fetal: quanto maior a medida, maior a probabilidade de anomalias cromossômicas, malformações estruturais e evolução desfavorável da gestação.

    • A padronização rigorosa da técnica é indispensável, pois variações de poucos décimos de milímetro podem modificar de forma significativa o cálculo final de risco.

    • O verdadeiro valor clínico da TN está na integração entre ultrassonografia de alta qualidade, marcadores bioquímicos maternos e avaliação clínica individualizada.


    Osso nasal


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    Take-home messages — Osso nasal no primeiro trimestre

  • O osso nasal pode ser avaliado pela ultrassonografia entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias, no mesmo período recomendado para a medida da translucência nucal.

  • A ausência do osso nasal no primeiro trimestre é um marcador fortemente associado à trissomia do cromossomo 21, mas também pode ocorrer em outras anomalias cromossômicas.

  • Em estudos com mais de 15.000 fetos, o osso nasal estava ausente em:

    • ≈ 1%–2% dos fetos cromossomicamente normais;

    • ≈ 60%–70% dos fetos com trissomia 21;

    • ≈ 50% dos fetos com trissomia 18;

    • ≈ 30% dos fetos com trissomia 13.

  • A prevalência de osso nasal ausente varia conforme a origem étnica, sendo:

    • < 1% em populações de origem caucasiana;

    • ≈ 10% em populações de origem afro-caribenha;

    • Esse fator deve ser considerado na interpretação do risco.

  • Os critérios técnicos para avaliação do osso nasal são os mesmos da TN, com atenção especial a:

    • corte longitudinal mediano;

    • feto em posição neutra;

    • transdutor alinhado paralelamente ao eixo do osso nasal.

  • Na imagem adequada do nariz fetal, devem ser visualizadas três linhas distintas:

    • a linha superior, correspondente à pele;

    • a linha inferior, mais espessa e ecogênica, correspondente ao osso nasal;

    • uma terceira linha, mais superficial e elevada, correspondente à ponta do nariz.

  • A avaliação do osso nasal complementa, mas não substitui, a translucência nucal, aumentando significativamente o desempenho do rastreamento.

  • Quando combinados:

    • TN + osso nasal + β-hCG livre + PAPP-A
      permitem identificar mais de 95% das gestações com trissomia 21, com taxa de falso-positivo em torno de 5%.

  • Assim como a TN, o osso nasal é um marcador de risco, e não um critério diagnóstico isolado.


  • Frequência cardíaca fetal

    Imagem 4

    Take-home messages — Frequência cardíaca fetal (FCF)

    • A frequência cardíaca fetal varia fisiologicamente ao longo do primeiro trimestre, aumentando de cerca de 100 bpm na 5ª semana até um pico de aproximadamente 170 bpm por volta da 10ª semana, com redução progressiva para cerca de 155 bpm na 14ª semana.

    • Alterações da FCF entre 11 e 13 semanas e 6 dias podem estar associadas a anomalias cromossômicas, refletindo distúrbios precoces do desenvolvimento fetal.

    • Taquicardia fetal no primeiro trimestre está associada principalmente a:

      • trissomia do cromossomo 13;

      • síndrome de Turner.

    • Bradicardia fetal nesse período é mais frequentemente observada em:

      • trissomia do cromossomo 18;

      • triploidia.

    • Na trissomia do cromossomo 21, observa-se apenas um discreto aumento da FCF, sem valor discriminatório isolado.

    • A medida da FCF não melhora de forma significativa o rastreamento da trissomia 21 no primeiro trimestre e, portanto, não deve ser utilizada isoladamente para esse fim.

    • O principal valor clínico da FCF como marcador de rastreamento está na identificação de fetos com trissomia 13, quando associada aos demais achados ultrassonográficos.

    • Assim como os demais marcadores, a FCF deve ser interpretada de forma integrada, em conjunto com a translucência nucal, o osso nasal e os marcadores bioquímicos maternos.


    Doppler do ducto venoso


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    Take-home messages — Ducto venoso

    • O ducto venoso é uma derivação fetal precoce, presente a partir de cerca do 30º dia de vida embrionária, que direciona sangue bem oxigenado da veia umbilical para a veia cava inferior, priorizando a perfusão cerebral e coronariana.

    • O padrão normal de fluxo no ducto venoso é trifásico, caracterizado por:

      • onda S (sístole ventricular) de alta velocidade;

      • onda D (diástole ventricular) de alta velocidade;

      • onda A anterógrada durante a contração atrial.

    • Padrões anormais de fluxo no ducto venoso incluem:

      • índice de pulsatilidade acima do percentil 95 para a idade gestacional;

      • ausência da onda A;

      • onda A reversa.

    • Fluxo anormal no ducto venoso entre 11 e 13 semanas e 6 dias está associado a:

      • anomalias cromossômicas, especialmente a trissomia do cromossomo 21;

      • malformações cardíacas congênitas;

      • maior risco de desfechos desfavoráveis da gestação.

    • Em grandes estudos prospectivos, o fluxo anormal no ducto venoso foi observado em:

      • ≈ 80% dos fetos com trissomia do cromossomo 21;

      • ≈ 5% dos fetos cromossomicamente normais (euploides).

    • A alteração do fluxo no ducto venoso é independente da translucência nucal, ou seja, a associação entre TN aumentada e fluxo anormal no ducto venoso é mínima.

    • A avaliação do ducto venoso complementa a medida da TN, aumentando significativamente a eficácia do rastreamento ultrassonográfico precoce da trissomia 21.

    • Assim como os demais marcadores, o ducto venoso não estabelece diagnóstico isolado, devendo ser interpretado de forma integrada com a TN, o osso nasal e os marcadores bioquímicos maternos.


    Doppler da valva tricúspide

    Imagem 6

    Take-home messages — Doppler da valva tricúspide

    • A regurgitação da valva tricúspide fetal é um marcador fortemente associado a anomalias cromossômicas, especialmente à trissomia do cromossomo 21.

    • Entre 11 e 13 semanas e 6 dias, a regurgitação tricúspide é observada em:

      • ≈ 2%–3% dos fetos cromossomicamente normais;

      • ≈ 60%–70% dos fetos com trissomia do cromossomo 21.

    • A prevalência da regurgitação tricúspide aumenta:

      • com o aumento da espessura da translucência nucal;

      • na presença de outros defeitos cardíacos estruturais;

      • e diminui com o avanço da idade gestacional, reforçando seu valor no primeiro trimestre.

    • A avaliação do fluxo tricúspide deve ser realizada com técnica rigorosa, incluindo:

      • imagem amplificada, contendo apenas o tórax fetal;

      • uso de Doppler pulsado;

      • amostra de volume posicionada verticalmente, abrangendo todos os folhetos da válvula tricúspide;

      • ângulo do fluxo < 30°.

    • O diagnóstico de regurgitação tricúspide no primeiro trimestre é estabelecido quando:

      • o refluxo está presente em pelo menos metade da sístole;

      • a velocidade do jato é > 80 cm/s.

    • A avaliação rotineira da regurgitação tricúspide no rastreamento de cromossomopatias contribui para:

      • aumentar a eficácia do rastreio ultrassonográfico;

      • favorecer o diagnóstico precoce de cardiopatias congênitas, já que exige adequada visualização das quatro câmaras cardíacas.

    • A presença de regurgitação tricúspide deve ser interpretada como um sinal de alerta para possível defeito cardíaco subjacente, mesmo na ausência de aneuploidia confirmada.

    • Assim como os demais marcadores do primeiro trimestre, o Doppler da valva tricúspide não é diagnóstico isolado e deve ser integrado à TN, ao osso nasal, ao ducto venoso e aos marcadores bioquímicos maternos.






    Referências
  • Nicolaides KH. Screening for fetal aneuploidies at 11 to 13 weeks. Prenat Diagn. 2011 Jan;31(1):7-15. doi: 10.1002/pd.2637. PMID: 21210475.
    Referência central conceitual do rastreamento combinado no primeiro trimestre (FMF).

  • Kagan KO, Wright D, Baker A, Sahota D, Nicolaides KH. Screening for trisomy 21 by maternal age, fetal nuchal translucency thickness, free beta-human chorionic gonadotropin and pregnancy-associated plasma protein-A. Ultrasound Obstet Gynecol. 2008 Jun;31(6):618-24. doi: 10.1002/uog.5331. PMID: 18461550.
    ➜ Base estatística do rastreamento combinado clássico.

  • Maiz N, Valencia C, Kagan KO, Wright D, Nicolaides KH. Ductus venosus Doppler in screening for trisomies 21, 18 and 13 and Turner syndrome at 11-13 weeks of gestation. Ultrasound Obstet Gynecol. 2009 May;33(5):512-7. doi: 10.1002/uog.6330. PMID: 19338027.
    ➜ Evidência-chave para o uso do ducto venoso como marcador adicional.

  • Faiola S, Tsoi E, Huggon IC, Allan LD, Nicolaides KH. Likelihood ratio for trisomy 21 in fetuses with tricuspid regurgitation at the 11 to 13 + 6-week scan. Ultrasound Obstet Gynecol. 2005 Jul;26(1):22-7. doi: 10.1002/uog.1922. PMID: 15937972.
    ➜ Referência fundamental sobre regurgitação tricúspide no rastreamento precoce.

  • ISUOG  ISUOG Practice Guidelines: performance of first-trimester fetal ultrasound scan
    Guia prático internacional para técnica, padronização e indicação do exame. Ultrasound Obstet Gynecol 2013; 41: 102–113 Published online in Wiley Online Library (wileyonlinelibrary.com). DOI: 10.1002/uog.12342


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