Enterocolite necrosante em recém-nascido: sinais radiológicos

Abr de 2016.

Autor: Isabela Gusson Galdino dos Santos

Orientadora: Profa. Dra. Beatriz Regina Alvares                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

 


 

História Clínica:

Recém-nascido (RN) prematuro, do sexo masculino, nascimento sem intercorrências, apresentou resíduo gástrico amarelo-esverdeado no 4º dia de vida, sendo optado por manter alimentação via oral por sonda oro gástrica (SOG) e observação. Paciente repetiu episódios de resíduo, evoluindo no exame físico com abdome globoso, distendido e tenso à palpação. No 5º dia de vida, apresentou queda do estado geral, necessitando de expansão volêmica e intubação oro traqueal. Radiografia (RX) abdominal revelou presença de pneumatose em todo o cólon e presença de ar no sistema porta, sem pneumoperitônio, sendo confirmado o diagnóstico de enterocolite necrosante (imagens 1 e 2).

 

Após o 8º dia de vida, paciente evoluiu com vômitos biliosos, sangue nas fezes e distensão abdominal. RX sem sinais de pneumatose, porém com distribuição gasosa irregular, sugestiva de suboclusão intestinal. Realizado enema opaco, que confirmou a presença de 3 pontos de obstrução (em cólon descendente e sigmoide), com indicação de abordagem cirúrgica. Paciente submetido à laparotomia com colectomia total e ileostomia com 40 dias de vida, evoluindo sem intercorrências e tendo alta hospitalar com 76 dias de vida.  

 

 

Imagens do Caso:

Imagem 1.

Radiografia simples de abdome, demonstrando pneumatose intestinal - imagens radiolucentes  lineares e bolhosas-,  em todos os segmentos do intestino grosso (setas). Também observa-se ar no sistema porta - imagens radiolucentes e lineares na projeção hepática, estendendo-se até a sua periferia ( setas). O estômago encontra-se distendido.  

 

Imagem 2

 

Radiografia simples de abdômen realizada em decúbito dorsal com raios horizontais, demonstra  pneumatose intestinal, ar no sistema porta distensão aérea gástrica com  nível hidro- aéreo.

 

 


Diagnósticos:

1) Prematuridade

2) Choque séptico

3) Enterocolite necrosante complicada com obstrução intestinal

 


 

Discussão:

            A enterocolite necrosante é uma inflamação grave do trato gastrointestinal que acomete principalmente recém-nascidos (RN) prematuros e está associada a elevadas taxas de mortalidade1. A prematuridade é o principal fator de risco da enterocolite necrosante e mais de 90% dos RN afetados nascem com menos de 37 semanas de gestação.

            A doença se manifesta através de intolerância à alimentação enteral, diarreia, enterorragia, sangue oculto nas fezes, vômitos alimentares e/ou biliosos e distensão abdominal. Detectados tais sintomas, a realização de exames através de métodos de imagem se faz necessária para confirmação do diagnóstico e acompanhamento. A radiografia simples de abdome é a técnica mais frequentemente empregada para investigar RN com enterocolite necrosante, sendo um método não invasivo, de fácil acesso, que pode ser realizado na própria UTI Neonatal e que possibilita a identificação de sinais radiológicos patognomônicos e complicações da doença.

            O sinal radiológico mais precoce é a distensão de alças intestinais. Porém, o diagnóstico radiológico só é confirmado com a presença da pneumatose intestinal, que representa o sinal mais patognomônico da doença. Esta alteração representa gás intramural devido à proliferação bacteriana, como conseqüência à destruição da mucosa, na parede da alça intestinaL, caracterizando-se radiologicamente por imagens radiolucentes lineares e/ou bolhosas. Algumas vezes, o aspecto radiológico na alça intestinal, pode lembrar o conteúdo fecal, sendo importante a realização de radiografias sequencias para demonstrar a permanência da alteração e confirmar o diagnóstico

A presença de ar portal representa um agravamento no quadro clínico da enterocolite necrosante, sendo fundamental o diagnóstico precoce desta alteração. O ar no sistema porta caracteriza-se radiologicamente por imagens lineares radiolucentes visíveis na projeção hepática, estendendo-se até a periferia deste órgão. Esta distribuição possibilita o diagnóstico diferencial com ar nas vias biliares pois o aspecto radiológico é semelhante, porém a sua localização hepática é mais central.

No presente caso, o diagnóstico radiológico precoce, possibilitou a condução do tratamento adequado, e apesar das complicações apresentadas pelo RN, no decorrer da evolução da enterocolite necrosante, o mesmo evoluiu com alta hospitalar.

 

  


 

Fonte: Acervo didático da Seção de Imaginologia do CAISM/UNICAMP

Fotógrafo: Neder Piagentini do Prado: ASTEC/CAISM/UNICAMP.

 


 

Referências:

1. Blakely ML, Gupta H, Lally KP. Surgical Management of Necrotizing Enterocolitis and Isolated Intestinal Perforation in Premature Neonates. 2008;122–6.

2. Llanos AR, Moss ME, Pinzòn MC, Dye T, Sinkin R, Kendig JW. Epidemiology of neonatal necrotising enterocolitis: a population-based study. Paediatr Perinat Epidemiol [Internet]. 2002 Oct;16(4):342–9. Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12445151

3. Alvares BR, Martins DL, Roma RL, Pereira IMR. Aspectos radiológicos relevantes no diagnóstico da enterocolite necrosante e suas complicações. Radiol Bras. 2007; 40(2): 127-30.

4. Epelman M, Daneman A, Navarro OM, Morag I, Moore AM, Kim JH, et al. Necrotizing enterocolitis: review of state-of-the-art imaging findings with pathologic correlation. Radiographics. 2007; 27(2): 285-305.

5. Coursey CA, Hollingsworth CL, Wriston C, Beam C, Rice H, Bisset G 3rd. Radiographic predictors of disease severity in neonates and infants with necrotizing enterocolitis. AJR Am J Roentgenol. 2009; 193(5): 1408-13.

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7. Aguayo P, Fraser JD, Sharp S, St Peter SD, Ostlie DJ. Stomal complications in the newborn with necrotizing enterocolitis. J Surg Res. 2009; 157(2): 275-8.

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9. Virjee JP, Gill GJ, Desa D, Somers S, Stevenson GW. Strictures and other late complications of neonatal necrotising enterocolitis. Clin Radiol. 1979; 30(1): 25-31.

10. Janik JS, Ein SH, Mancer K. Intestinal stricture after necrotizing enterocolitis. J Pediatr Surg. 1981; 16(4): 438-43.

Citar esse artigo (NBR 6023)

Enterocolite necrosante em recém-nascido: sinais radiológicos. Dr.Pixel. Campinas. 2016. Disponível em: https://drpixel.fcm.unicamp.br/conteudo/enterocolite-necrosante-em-recem-nascido-sinais-radiologicos. Acesso em: 13 Jul. 2020