Texto ilustrado

Biometria fetal

A biometria fetal constitui a base da avaliação ultrassonográfica do crescimento e do desenvolvimento fetal ao longo da gestação.

  • Obstetrícia
  • Intermediário
  • 29 min
  • Publicado em
  • Atualizado em
← Voltar para aulas
Biometria fetal

Conteúdo

Introdução à biometria fetal

A biometria fetal constitui a base da avaliação ultrassonográfica do crescimento e do desenvolvimento fetal ao longo da gestação. Por meio de medidas padronizadas, obtidas em planos anatômicos específicos, é possível estimar com maior precisão a idade gestacional, acompanhar o padrão de crescimento fetal e identificar precocemente desvios que podem impactar o prognóstico perinatal.

A correta execução da técnica e o reconhecimento rigoroso dos planos anatômicos adequados são fundamentais para garantir medidas reprodutíveis, comparáveis ao longo do tempo e clinicamente confiáveis.

 

Comprimento Cabeça–Nádega (CCN)


Função clínica

O comprimento cabeça–nádega é o parâmetro biométrico mais preciso para a avaliação da
idade gestacional no primeiro trimestre da gestação. Por refletir diretamente o crescimento embrionário inicial, apresenta a menor variabilidade entre os métodos de datação, sendo considerado o padrão-ouro nessa fase.

Plano de corte adequado

A medida do CCN deve ser obtida em um corte sagital mediano, com o embrião ou feto em repouso e em posição neutra, evitando hiperflexão ou hiperextensão. O plano deve permitir a visualização clara do eixo longitudinal do embrião.

Técnica de aquisição

O eixo longitudinal do CCN deve estar perpendicular ao feixe sonoro. Esse cuidado é essencial para evitar encurtamento artificial da medida, que ocorre quando o corte é realizado de forma oblíqua. Recomenda-se centralizar o embrião/feto na tela e utilizar aproximação adequada (zoom), de modo que ele ocupe a maior parte da imagem.

Técnica de medida

A medida deve corresponder ao maior comprimento em linha reta, desde o polo cefálico até a extremidade caudal (nádega), excluindo estruturas como saco vitelino ou membros. Devem ser realizadas três medidas consecutivas, registrando-se a melhor delas, obtida em plano adequado e com contornos nítidos.

Precisão e variabilidade

A variabilidade da estimativa da idade gestacional baseada no CCN é de aproximadamente ± 8% (2 desvios-padrão), reforçando sua elevada acurácia quando comparada a outros métodos de datação.

Erros mais frequentes

  • Realizar a medida em plano não sagital mediano

  • Medir com o embrião em hiperflexão ou hiperextensão

  • Eixo longitudinal do embrião oblíquo em relação ao feixe sonoro

  • Incluir saco vitelino ou membros na medida

  • Não utilizar zoom adequado, dificultando a definição dos polos

  • Registrar apenas uma medida, sem repetir o exame

Consequência

  • Subestimação ou superestimação da idade gestacional no primeiro trimestre



Exemplos de medidas corretas



Circunferência Cefálica (CC)

Função clínica

A circunferência cefálica é um parâmetro biométrico fundamental para a estimativa do peso fetal e para a avaliação da idade gestacional, especialmente no segundo trimestre. Além disso, permite o acompanhamento do crescimento cefálico ao longo da gestação.

Plano de corte adequado

A CC deve ser obtida em um corte axial verdadeiro da cabeça fetal, correspondente ao plano talâmico clássico. Esse plano é caracterizado pela visualização simultânea dos tálamos, do terceiro ventrículo, do cavum do septo pelúcido e dos ventrículos laterais. A inclusão do cerebelo ou da fossa posterior indica plano baixo e invalida a medida.

Cavum do septo pelúcido

O cavum do septo pelúcido é uma estrutura anecoica central, localizada anteriormente no plano axial da cabeça fetal, e constitui um marcador importante do desenvolvimento normal da linha média cerebral. Espera-se que esteja localizado no terço anterior do crânio e apresente diâmetro anteroposterior maior que o laterolateral.

A não identificação do cavum do septo pelúcido deve sempre levantar a suspeita de malformações do sistema nervoso central, especialmente defeitos da linha média, como agenesia ou disgenesia do corpo caloso, holoprosencefalia (formas semilobar e lobar) e displasia septo-óptica (síndrome de De Morsier).

Critérios de simetria 

A linha média cerebral deve estar contínua e bem definida, a calota craniana centralizada e simétrica, e os ventrículos laterais simétricos, com plexos coroides visíveis nos cornos posteriores. A ausência de simetria sugere plano oblíquo e invalida a medida.

Técnica de aquisição

Deve-se obter um corte axial verdadeiro, com a cabeça fetal centralizada e adequadamente aproximada, permitindo visualização clara dos limites externos da calota craniana.

Técnica de medida

A circunferência cefálica pode ser obtida por traçado elíptico ao longo da borda externa da calota craniana ou calculada automaticamente a partir dos diâmetros biparietal e occipitofrontal. O traçado elíptico direto é o método preferido, por reduzir erros geométricos.

Previsão e variabilidade

No segundo trimestre, a variabilidade da estimativa da idade gestacional baseada na CC é de aproximadamente ± 7 a 10 dias (2 desvios-padrão). Com o avanço da gestação, essa variabilidade aumenta progressivamente, tornando a CC menos precisa para datação no terceiro trimestre, quando deve ser utilizada prioritariamente para avaliação do crescimento e estimativa do peso fetal.

Erros mais frequentes

  • Utilizar plano incorreto: não deve ser utilizado o plano transventricular, mais baixo, com inclusão do cerebelo. Esse plano é utilizado para a medida da espessura do átrio do corno posterior do ventrículo lateral.

  • Linha média não centralizada ou oblíqua

  • Falta de simetria da calota craniana

  • Confundir o cavum do septo pelúcido como interrupção da linha média

  • Medir DBP ou CC em cortes oblíquos

  • Traçar a elipse fora da borda externa da calota craniana

Consequência

Planos incorretos resultam em erros na estimativa da idade gestacional e do peso fetal.

Exemplos de medidas corretas.

CIrcCefal_Aula_BiometriaCorte axial ultrassonográfico do crânio fetal, adequado para a medida dos diâmetros biparietal (DBP) e occipitofrontal (DOF). A circunferência cefálica (CC) pode ser obtida diretamente por traçado elíptico neste plano ou calculada automaticamente pelo equipamento a partir do DBP e do DOF. Rosa: tálamos. Azul: terceiro ventrículo. Amarelo: cavum do septo pelúcido. Vermelho: linha média inter-hemisférica (foice cerebral). Verde: contorno da porção parietal do ventrículo lateral. Branco: plexo coroide. Asterisco: ausência do cerebelo, confirmando plano adequado para biometria cefálica.



Circunferência Abdominal (CA)


Função clínica

A circunferência abdominal é o parâmetro biométrico que mais influencia a estimativa do peso fetal nas fórmulas usuais e o mais sensível para detectar alterações do crescimento intrauterino. Não deve ser utilizada para datação da idade gestacional.

Significado fisiológico

A CA reflete principalmente o desenvolvimento hepático e dos tecidos moles fetais, sendo altamente sensível a condições associadas à restrição ou ao excesso de crescimento.

Plano de corte adequado

A CA deve ser medida em um corte transversal verdadeiro do abdome fetal, ao nível do fígado, com formato circular, apenas uma costela visível em cada lado e coluna posicionada preferencialmente às 3 ou 9 horas.

Devem estar visíveis o estômago, o seio portal, a coluna vertebral e a aorta descendente. A presença de rins, vesícula biliar, coração ou inserção abdominal do cordão indica plano incorreto.

Seio portal
Corresponde ao segmento intra-hepático discretamente dilatado da veia umbilical, identificado como um
curto trajeto intra-hepático no plano abdominal adequado. A visualização apenas da menor extensão possível da veia umbilical, em continuidade com um trajeto lateral em direção ao ramo esquerdo da veia porta (sinal do taco de golfe), confirma que o corte foi realizado ao nível do fígado, evitando planos oblíquos, altos ou baixos, inadequados para a medida da circunferência abdominal.

Técnica de aquisição

A imagem deve ser adquirida com o abdome centralizado e adequadamente aproximado, permitindo visualização clara do contorno externo e simetria das costelas.

Técnica de medida

A CA pode ser obtida automaticamente a partir dos diâmetros anteroposterior e transverso ou por traçado elíptico ao longo do contorno externo do abdome.

Previsão e variabilidade

A CA apresenta grande variabilidade individual e não deve ser usada para datação. No terceiro trimestre, a variabilidade pode exceder ± 3 semanas. Pequenas variações seriadas, entretanto, são altamente informativas para o acompanhamento do crescimento fetal.

Erros mais frequentes

  • Realizar a medida em plano alto ou baixo:Inclusão de rins, vesícula biliar, coração ou umbigo

  • Abdome com formato oval, indicando corte oblíquo

  • Mais de uma costela visível em cada lado

  • Coluna fora das posições esperadas (3 ou 9 horas)

  • Incluir tecidos adjacentes à parede abdominal

  • Utilizar a CA para datação da idade gestacional

Consequências

Planos oblíquos, formato oval do abdome, múltiplas costelas visíveis e uso da CA para datação resultam em erros significativos na estimativa do peso fetal e interpretação equivocada de restrição ou macrossomia.


Exemplos de medidas corretas
.

biometria overlay
Plano axial ideal para a medida da circunferência abdominal. Abdome com formato circular, obtido em corte transversal verdadeiro. O asterisco (*) indica o estômago. O contorno cinza delimita o corpo vertebral, posicionado às 3 horas. O contorno vermelho identifica a aorta descendente. O contorno amarelo evidencia a presença de apenas uma costela nesse plano. O contorno azul demonstra o seio portal,  correspondente ao segmento intra-hepático da veia umbilical, visualizado como um trajeto curto, lateral e aproximadamente horizontal, afastando-se da linha média para a direita do feto, em continuidade com o ramo esquerdo da veia porta, caracterizando o "sinal do taco de golfe". No plano adequado não são identificados rins, vesícula biliar, coração ou a inserção do cordão umbilical na parede abdominal.





Comprimento do Fêmur (CF)

Função clínica

O comprimento do fêmur é um parâmetro biométrico importante para a estimativa do peso fetal e da idade gestacional, além de refletir o crescimento longitudinal fetal.

Plano de corte adequado

A medida deve ser realizada em um corte longitudinal verdadeiro, com visualização completa da diáfise femoral calcificada, bem como das extremidades cartilaginosas.

Técnica de aquisição

O feixe sonoro deve incidir o mais perpendicularmente possível ao eixo do fêmur, que deve estar horizontal ou inclinado menos de 45 graus, evitando encurtamento por obliquidade. O osso deve estar centralizado e adequadamente aproximado.

Técnica de medida

Deve-se medir apenas a porção calcificada da diáfise, posicionando os calibradores nas junções entre cartilagem e osso. A inclusão de cartilagem compromete a acurácia da medida.

Previsão e variabilidade

No segundo trimestre, a variabilidade da estimativa da idade gestacional baseada no CF é de aproximadamente ± 10 a 14 dias (2 desvios-padrão). No terceiro trimestre, o CF deve ser utilizado principalmente para avaliação do crescimento e como componente das fórmulas de peso fetal estimado.

Erros mais frequentes

  • Medir o fêmur em plano oblíquo

  • Feixe sonoro não perpendicular ao eixo do osso

  • Medir fêmur parcialmente visualizado

  • Incluir as porções cartilaginosas (cabeça ou côndilo)

  • Confundir o fêmur com outros ossos longos

  • Não utilizar zoom adequado

Consequências

Medidas em plano oblíquo, feixe não perpendicular e inclusão de cartilagem resultam em subestimação ou superestimação do comprimento femoral e podem levar à suspeita incorreta de displasia ou alteração do crescimento longitudinal.


Exemplos de medidas corretas.


femur_US_biometria
Medida correta do comprimento do fêmur. O fêmur encontra-se aproximadamente horizontal (< 45°), centralizado na tela, com visualização completa da diáfise femoral ossificada, apresentando término abrupto das extremidades (aspecto retangular). A medida corresponde à distância linear entre os limites da diáfise ossificada. Os asteriscos indicam as epífises proximal (cabeça do fêmur) e distal (côndilos femorais), cartilaginosas e hipoecoicas, que não devem ser incluídas na mensuração.





Referências clássicas 

Comprimento Cabeça–Nádega (CCN)

  1. Robinson HP. Sonar measurement of fetal crown-rump length as means of assessing maturity in first trimester of pregnancy. Br Med J. 1973 Oct 6;4(5883):28-31. doi: 10.1136/bmj.4.5883.28. PMID: 4755210; PMCID: PMC1587065.

  2. Hadlock FP, Shah YP, Kanon DJ, Lindsey JV. Fetal crown-rump length: reevaluation of relation to menstrual age (5-18 weeks) with high-resolution real-time US. Radiology. 1992 Feb;182(2):501-5. doi: 10.1148/radiology.182.2.1732970. PMID: 1732970.


 Diâmetro Biparietal (DBP) e Circunferência Cefálica (CC)

  1. Hadlock FP, Deter RL, Harrist RB, Park SK. Estimating fetal age: computer-assisted analysis of multiple fetal growth parameters. Radiology. 1984 Aug;152(2):497-501. doi: 10.1148/radiology.152.2.6739822. PMID: 6739822.

  2. Hadlock FP, Deter RL, Harrist RB, Park SK. Fetal head circumference: relation to menstrual age. AJR Am J Roentgenol. 1982 Apr;138(4):649-53. doi: 10.2214/ajr.138.4.649. PMID: 6978026.

  3. Campbell S, Newman GB. Growth of the fetal biparietal diameter during normal pregnancy. J Obstet Gynaecol Br Commonw. 1971 Jun;78(6):513-9. doi: 10.1111/j.1471-0528.1971.tb00309.x. PMID: 5559266.


 Circunferência Abdominal (CA)

  1. Campbell S, Wilkin D. Ultrasonic measurement of fetal abdomen circumference in the estimation of fetal weight. Br J Obstet Gynaecol. 1975 Sep;82(9):689-97. doi: 10.1111/j.1471-0528.1975.tb00708.x. PMID: 1101942.

  2. Estimation of fetal weight with the use of head, body, and femur measurements—A prospective study.
    Am J Obstet Gynecol. 1985;151(3):333–337.


 Comprimento do Fêmur (CF)

  1. O'Brien GD, Queenan JT, Campbell S. Assessment of gestational age in the second trimester by real-time ultrasound measurement of the femur length. Am J Obstet Gynecol. 1981 Mar 1;139(5):540-5. doi: 10.1016/0002-9378(81)90514-7. PMID: 7193418.

  2. Hadlock FP, Harrist RB, Deter RL, Park SK. Fetal femur length as a predictor of menstrual age: sonographically measured. AJR Am J Roentgenol. 1982 May;138(5):875-8. doi: 10.2214/ajr.138.5.875. PMID: 6979176.
  3. Hadlock FP, Harrist RB, Sharman RS, Deter RL, Park SK. Estimation of fetal weight with the use of head, body, and femur measurements--a prospective study. Am J Obstet Gynecol. 1985 Feb 1;151(3):333-7. doi: 10.1016/0002-9378(85)90298-4. PMID: 3881966.

 Diretrizes modernas 

  1. Salomon LJ, Alfirevic Z, Da Silva Costa F, Deter RL, Figueras F, Ghi T, Glanc P, Khalil A, Lee W, Napolitano R, Papageorghiou A, Sotiriadis A, Stirnemann J, Toi A, Yeo G. ISUOG Practice Guidelines: ultrasound assessment of fetal biometry and growth. Ultrasound Obstet Gynecol. 2019 Jun;53(6):715-723. doi: 10.1002/uog.20272. PMID: 31169958.